domingo, 21 de novembro de 2010

Uma lição especial

Eliedson (CAS), eu (AEE), Ana Luíza (CAS),
Rejane (CAS), Lara (UFERSA)
Foto: Rita

Na noite da última quarta-feira, o meu estado emocional chegou ao ápice. Fiz um esforço enorme para não chorar diante de dezenas de pessoas. Um misto de alegria, satisfação e encantamento, acompanhado de um sentimento de realização e da certeza de que fiz a escolha certa, em termos profissionais, tomaram conta do meu ser. Recebi uma valiosa recompensa pelas horas, dias, meses e anos que tenho dedicado à causa da inclusão.
Esta data fará parte dos meus arquivos de saudade, armazenados em minha mente, pois é a prova de que vale a pena investir na aprendizagem das pessoas com capacidades diferentes. Digo isto porque acho fantástico, por exemplo, uma jovem utilizar uma língua totalmente distinta do idioma da maioria e conseguir comunicar-se tão bem ao ponto de despertar o interesse e a atenção de uma plateia heterogênea por excelência.
Ana Luíza interagindo com Felipe
SRM /EMSDF - Trabalho voluntário
Foto: Josselene Marques
Foi neste contexto que reencontrei Ana Luíza - uma de minhas ex-alunas com surdez. Eu tive o privilégio de conhecê-la, no início desta década, quando lecionava Língua Inglesa no Ensino Fundamental. Sempre nos demos muito bem e, dentro de minhas limitações, procurei promover a sua inclusão. Quando ela concluiu esse nível de ensino, foi transferida para outra escola e perdemos o contato. Recentemente, ela retornou à sua antiga escola para realizar um trabalho voluntário, auxiliando-me, por algumas semanas, no atendimento a um aluno com surdez severa, enriquecendo as minhas aulas com sua fluência em Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. Todavia, esta regalia durou pouco. Convites para participar de cursos e realizar atividades no Centro de Apoio ao Surdo – CAS absorveram-na e fomos privados de sua inestimável contribuição – por uma boa causa, reconheço – na nossa Sala de Recursos Multifuncionais para Atendimento Educacional Especializado – AEE.

Ana Luíza em visita à SRM da EMSDF
Foto: Josselene Marques

Algumas semanas depois, para minha surpresa, encontro-me de novo com Ana Luíza - este doce de menina! Só que, agora, na condição de sua aluna – veja que maravilha! Os papéis se inverteram.
Com o incentivo e a ajuda de seus pais – especialmente, de sua supermãe –, atualmente, ela é graduanda do 6º período do curso de Pedagogia e integrada ao CAS. Reconhecida a sua competência, foi convidada para ser uma das palestrantes de uma formação continuada para professores de alunos com surdez, da qual estou participando, promovida pela Coordenação de Educação Especial da Gerência Executiva de Educação de Mossoró.
Esta foi a principal razão de minha emoção: aprender com uma ex-aluna como atender melhor aos meus atuais alunos. Não consigo descrever, com precisão, o que senti ao vê-la assumir, diante dos professores-alunos, uma postura segura, ao transmitir o seu saber, na sua língua, fazendo-se entender, perfeitamente, ao mesmo tempo em que encantava a todos com as suas estratégias e a sua simpatia.

Ana Luíza em sua palestra na EMJSB.
Foto: Josselene Marques

Fiquei a imaginar, enquanto observava o seu excelente desempenho: e se ela não tivesse frequentado a escola? Se sua mãe a tivesse escondido do mundo – como acontece com muitas crianças, por ignorância de seus pais ou até mesmo pelo medo de verem-nas sofrer algum tipo de discriminação?
Sem dúvida, Aninha é um exemplo a ser seguido. É mais alguém que nos faz ver que a inclusão é possível e que todo ser humano é capaz de aprender e dar sua parcela de contribuição para a sociedade. Nessa noite, muito mais que o conteúdo ministrado (os sinais referentes aos animais e às cores), aprendi uma lição especial: ela me fez entender que todos aqueles aos quais denominamos pessoas com deficiência, na verdade, são pessoas com capacidades diferentes e, a deficiência está em quem não consegue enxergar isso e não lhes dá a oportunidade de provar o quão úteis eles podem ser no exercício pleno de sua cidadania.

Copyright 2010 © Josselene Marques
Todos os direitos reservados

7 comentários:

Anônimo disse...

Oh........ querida Josselene .
Você como sempre expressando a alegria de compartilhar o sucesso de pessoas que superam obstáculos e mostram que a inclusão é o melhor caminho, principalmente , quando temos uma sociedade que se abre e dispõe a aprender com o outro.
Você contribui muito para isto !
beijão grande
SElma

Eu Mulher disse...

Nossa! Também fiquei super emocionada com a história dessa moça. Quem diria que um dia você seria aluna dela, né?

Parabéns por sua força de vontade em ajudar o próximo.

Beijos

Anônimo disse...

Josselene eu imagino a sua emoção. Esta semana eu estava conversando com uma colega de trabalho e falava exatamente sobre a necessidade de aprendermos LIBRAS para interagirmos com a professora de LIBRAS de nossa Faculdade. Abraços. Ângela R Gurgel

Jarlene Marques disse...

Selene,

Sua crônica mostra o sucesso de Aninha e a sua grandiosidade. Ser aluna de uma ex-aluna e perceber/reconhecer que ela tem muito a ensinar e está disposta a aprender com a humildade que é característica de todos que são verdadeiramente GRANDES. Parabéns, garota. Tenho muito orgulho de você. Como diz Jaciara: "Quando crescer quero ser igualzinha a você".
Cheiro,
Jarlene Marques

Graça Viana disse...

Pois é isso aí Joss!!! A todo instante nos deparamos com essas evidências. O que comprova a grandiosidade do que fazemos para que pessoas como sua ex-aluna não fiquem à margem da sociedade e da própria vida. Meu abraço literalmente arrepiado de emoção!!!! Graça Viana.

Anônimo disse...

É tão bom isso, não? Isto é uma prova de que o conhecimento é partilhado, é feito troca - ora ensino, ora aprendo - e que nós não somos os donos dele. Porém, o melhor é a emoção do reencontro, o orgulho de ver os resultados e a troca de papéis. Fiquei emocionado, Josselene, com o seu relato. Mas, partindo de você, tudo isso é normal em seu cotidiano. Você, como sempre - e através dessa abnegação - consegue dar testemunhos de como um educador deve se portar diante da vida. Parabéns!
Abraço,s
Raí

Anônimo disse...

Quando nos encontramos esses dias vc me perguntou se já tinha lido sua publicação no jornal, prontamente respondi que não, logo que cheguei ao trabalho busquei a leitura...e vi que vc é realmente uma grandiosa pessoa em todos os aspectos...adorei, parabéns bela bela história...você contribui imensamente pelos menos favorecidos, isso eu tenho a certeza. .Gérria